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A Separação e os seus avatares

 

"Quem não vê bem uma palavra não pode ver uma alma."
Fernando Pessoa

Questão: Tenho um filho passando pelo

processo de separação. Qual a melhor maneira de ajudar meus netos?

Resposta: Os avós podem ajudar especialmente se estiverem numa posição para além das queixas fixas e nostalgicas; ou seja, terem conseguido minimamente elaborar e transformar suas próprias separações ou perdas em novos laços, paixões, servindo-se das experiências passadas para reinventar –

característica esta, aliás, da infância. Outra marca deste período a qual vale guardar é um querer direto, sem máscaras. Coloco isto para dizer da importância de ventilar os afetos por meio das palavras. Os pais imbuídos no calor deste momento, ou na intenção de protegê-los, mandam os filhos sumirem como se pudessem "deletálos" da desagradável situação conflitiva, esquecendo ser a comunicação a melhor forma de humanizar e diminuir a turbulência; longe, é claro, de cair no extremo oposto de tomá-los como objeto de confissões adultas. Avós mais distanciados deste clima estão em melhores condições de captar e decodificar sofrimentos por trás das ações (refletidas também no corpo) que mereçam atenção profissional, e/ou serem interlocutores dos mais variados sentimentos – como, por exemplo: fantasias de abandono, culpabilizações. Funcionam, se for o caso, como modelo de relacionamento estável; e, por outro lado, devem apoiar na queda idealizada do eterno casal, tendo em vista que quando o convívio se torna insuportável o divórcio tem por finalidade causar um mal menor. Enfim, o suporte referencial é bem-vindo tanto nas ressonâncias individuais como contextuais desta vivência.

Incluindo aí o seu filho. Pais que assumem a separação de modo responsável e ético, mantendo o respeito mútuo entre partes, a confiança no que é dito, sem utilizar a prole como instrumento de manipulações (ciúmes, solidão, narcisismo, poder...), geram, com efeito, avanço em autonomia e maturação psicossocial. Fato que reforça a tese: para voltar à legitimidade do infantil é preciso percorrer o norte do amadurecimento.

Taisa Santos
psicóloga e psicanalista.
taisast@bol.com.br